Por: Marta Pereira e Carla Calado
As Narrativas dominantes são as narrativas mais amplamente disseminadas num determinado contexto, e moldam a forma como as pessoas pensam sobre um determinado assunto, como por exemplo a migração, influenciando diretamente as atitudes, crenças e decisões políticas. Foi isso que destacou o mais recente relatório do Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia, publicado em junho, sobre o impacto das narrativas de migração nas perceções e políticas públicas. Este tipo de narrativas, quando possuem uma raiz desinformada e cariz negativo, se não forem contestadas ou desconstruídas, minam a coesão social e colocam em perigo a inclusão de pessoas de diversas origens na nossa sociedade, fomentando o conflito, a desconfiança e o ódio.
Segundo o guia “Designing a communication strategy in intercultural cities” produzido pela Rede Espanhola de Cidades Interculturais (RECI), com o apoio do Conselho da Europa, narrativas são uma forma de apresentar e interpretar acontecimentos ou realidades (existentes ou potenciais), com o objetivo de promover um ponto de vista ou abordagem particular baseada em valores e ideias específicas.
O relatório do JRC reforça que as narrativas podem omitir elementos que não se alinham com a visão dominante, contribuindo para uma confirmação de perceções distorcidas sobre temas complexos, como o da migração.
O movimento Contra o Discurso de Ódio alerta que as narrativas podem não ser evidentes, uma vez que, com frequência, não são mencionadas explicitamente, mas estão implícitas nas mensagens. Por isso, é urgente ter ferramentas para as identificar e analisar.
É precisamente com base neste entendimento que a RPCI tem desenvolvido o seu trabalho para transformar narrativas e promover a inclusão das comunidades migrantes.
No âmbito de políticas públicas, e a convite do município de Loures, a RPCI está a colaborar na implementação do Plano Municipal de Integração de Migrantes (PMIM) de Loures 2024-2027. Este plano promove a concretização do processo de integração das pessoas migrantes na sociedade portuguesa, contribuindo para uma gestão mais eficaz e inclusiva dos fluxos migratórios, ao nível do desenvolvimento local.
Porque acreditamos que promover a integração passa também pela (re)construção de narrativas positivas que valorizem a diversidade e o contributo das comunidades para o desenvolvimento social, o nosso projeto STAND visa apoiar cidades na criação de narrativas alternativas.
Loures foi uma das quatro cidades envolvidas – juntamente com Barcelos, Vila Verde e Viseu – em momentos de diagnóstico participativo que permitiram identificar as principais narrativas opressoras locais.
Mas afinal, o que são narrativas alternativas e como podemos desconstruir as narrativas dominantes negativas que ainda dominam o discurso público? A RPCI mostra o caminho.
Como construir narrativas alternativas?
As narrativas alternativas surgem como uma uma resposta crítica às percepções negativas dominantes, focando-se em construir narrativas positivas, pluralistas ou progressistas baseadas nos princípios interculturais e no respeito pelos direitos humanos.
Alguns fatores que devemos ter em atenção quando desconstruimos narrativas são:
- Adotar uma perspetiva anti-etnocentrista da história
Desconstruir narrativas opressoras exige ir à raiz dos problemas sociais, culturais e políticos, contextualizando a história das desigualdades para entender os mecanismos atuais de exclusão das comunidades migrantes e racializadas. Superar o etnocentrismo implica rejeitar a ideia de que existe uma cultura ou narrativa histórica superior, e dar lugar a múltiplas perspetivas.
A autora Chimamanda Adichie fala-nos do “perigo da história única”, argumentando que quando apenas uma narrativa é contada, criamos estereótipos e perceções limitadas. Ouvir e contar outras histórias é um passo essencial para combater o preconceito.
- Abrir espaços às vozes periféricas
É urgente garantir que as próprias comunidades migrantes e racializadas falem sobre a sua própria história. A autora brasileira Djamila Ribeiro introduz o conceito de “lugar de fala” como o lugar social, económico, político e cultural a partir do qual alguém fala e que molda as suas experiências e vivências.
Reconhecer que determinados grupos sociais possuem experiências únicas de discriminação e que a maioria destas perspetivas continua a ser marginalizada nos espaços mainstream exige criar condições para que as suas vozes sejam ouvidas nos media, nas artes, na política e na educação.
- Criar redes de resistência coletiva
A mudança narrativa e estrutural exige ação coletiva e não apenas individual. As narrativas ganham força quando nascem de redes, coletivos e movimentos, que articulam vozes, experiências e estratégias de ação.
Durante o processo de desconstrução de narrativas, é, ainda, essencial distinguir entre contra narrativas e narrativas alternativas. Apesar dos dois termos se focarem no combate a discursos discriminatórios baseados numa cultura de Direitos Humanos e de Democracia, apresentam abordagens distintas.
As contra narrativas fazem referências diretas à narrativa opressora, oferecendo contra-argumentos e factos. Já as narrativas alternativas tentam enfraquecer o discurso de ódio construindo uma nova narrativa com um enquadramento alternativo que apoie a mudança que se quer trazer à sociedade.
O movimento Contra o Discurso de Ódio realça que, na prática, a diferença entre os dois termos pode ser ténue mas uma contra narrativa é essencialmente reativa – ela reage a uma narrativa opressora, podendo, sem intenção, com a sua reação reforçar o que pretende desconstruir. Por sua vez, as Narrativas Alternativas contam novas histórias e diferentes perspectiva de forma proativa, de forma a gerar imagens e disseminar mensagens positivas sobre os diferentes grupos.
São necessários quatro passos para a construção de uma contra narrativa ou narrativa alternativa:
- Analisar a narrativa opressiva que queremos combater.
- Conceber a contranarrativa ou narrativa alternativa.
- Implementar a contranarrativa ou narrativa alternativa.
- Avaliar e monitorizar a contranarrativa ou narrativa alternativa.
Porque, na RPCI, acreditamos que este trabalho deve ser feito em rede, os próximos passos do projeto STAND passam por workshops de co-criação de narrativas em todas as cidades com as comunidades visadas, implementado metodologias participativas e de colaboração entre staff municipal, serviços públicos e as comunidades. Só assim poderemos construir um discurso mais plural, justo e centrado nos Direitos Humanos.
Antes disso, e após as ações de formação realizadas em Barcelos, Vila Verde e Viseu no mês de julho, foram realizadas ações com agentes locais em Loures, nos dias 2, 3 e 4 de setembro.

Imagem 1 – Formação em Loures (Turma 1)

Imagem 2 – Formação em Loures (Turma 2)
Acompanha-nos para saber mais sobre os próximos passos do projeto!
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