Por: Danielle Menezes, em português brasileiro
Portugal é hoje um país marcado por transformações culturais e demográficas profundas. Os diferentes fluxos migratórios das últimas décadas trouxeram novas comunidades, tradições e práticas religiosas para as cidades portuguesas, ampliando a diversidade presente no cotidiano.
Conhecer essa diversidade religiosa em Portugal é também compreender melhor os territórios e as relações que se constroem neles. No novo episódio do podcast Portugal Plural, da Rede Portuguesa das Cidades Interculturais (RPCI), o professor Paulo Mendes Pinto, coordenador da Carta das Religiões em colaboração com os responsáveis das autarquias, fala sobre esse cenário e sobre os desafios do diálogo inter-religioso. Confira!
A diversidade religiosa em Portugal está transformando as cidades?
A diversidade religiosa portuguesa resulta de diferentes processos. Ao longo das últimas décadas, o país recebeu pessoas vindas do Brasil, de países africanos de língua portuguesa, da Ucrânia e, mais recentemente, de países como Índia, Nepal e Bangladesh. Com as migrações, também se transformaram as comunidades religiosas presentes no território.
O crescimento de igrejas evangélicas de matriz brasileira é um dos fenômenos mais recentes identificados nas grandes cidades. Também têm crescido comunidades hinduístas, budistas e muçulmanas.
Essa transformação torna a diversidade religiosa em Portugal cada vez mais parte da realidade cotidiana das cidades, das escolas e de outros espaços de convivência. Ao mesmo tempo, coloca novos desafios para instituições públicas e comunidades.
O que é a Carta das Religiões?
Foi a partir dessa realidade que a Universidade Lusófona desenvolveu a Carta das Religiões. O projeto procura identificar e caracterizar comunidades religiosas presentes em diferentes municípios, incluindo informações sobre sua composição, atividades religiosas, educativas e de apoio social.
O trabalho não se limita ao levantamento de dados. A equipe estabelece contato com as comunidades, visita os seus espaços e procura construir uma relação de confiança. A Carta das Religiões já foi realizada em municípios como Odivelas, Oeiras, Amadora, Porto e Braga, e está em desenvolvimento em Famalicão.
A proposta não é produzir necessariamente uma carta de todo o país, mas conhecer de forma aprofundada municípios com maior população e diversidade cultural e religiosa.
Como a Carta das Religiões pode contribuir para a inclusão?
Para além da dimensão acadêmica, a Carta das Religiões pretende ser uma ferramenta para os municípios compreenderem melhor a realidade dos seus territórios e planejarem políticas públicas mais adequadas.
O mapeamento também cria oportunidades de aproximação entre universidades, poder público e comunidades religiosas. Esse contato é capaz de fortalecer relações de confiança e abrir caminhos para ações de cidadania, sensibilização e diálogo inter-religioso.
Nesse sentido, conhecer a diversidade religiosa em Portugal implica compreender quem são as comunidades que a compõem, suas trajetórias e as relações que estabelecem com o território.
Como a falta de conhecimento pode alimentar o preconceito?
A ausência de informação pode favorecer generalizações sobre grupos religiosos. Nas redes sociais, acontecimentos específicos podem ser apresentados como características de comunidades inteiras, alimentando medo e hostilidade.
Durante o episódio, Paulo Mendes Pinto aborda também o crescimento de discursos de islamofobia e a representação de determinadas tradições religiosas como uma ameaça. A conversa chama atenção para a importância de diferenciar acontecimentos pontuais das características de uma comunidade e de evitar que o desconhecimento seja transformado em preconceito.
É justamente nesse campo que se insere o Words Matter, projeto desenvolvido pela RPCI, em conjunto com os municípios de Barcelos, Portimão, Porto e Viseu, para prevenir e combater o discurso de ódio. A iniciativa articula educação para os direitos humanos, cidadania democrática, literacia mediática e diálogo intercultural.
Quais são os desafios do diálogo entre comunidades e poder público?
Outro ponto levantado no episódio é que o diálogo não pode ficar restrito às lideranças nacionais das diferentes religiões. Para produzir mudanças concretas, ele precisa alcançar as comunidades locais e as pessoas que delas fazem parte.
Esse talvez seja um dos maiores desafios para promover a diversidade religiosa em Portugal como parte efetiva da cidadania. A aproximação exige disposição para ouvir, conhecer diferentes experiências e criar espaços de convivência que não reforcem o isolamento entre grupos.
A Carta das Religiões parte justamente desse encontro: conhecer para criar relações, relações para ampliar o diálogo e diálogo para fortalecer uma sociedade mais informada e capaz de lidar com suas diferenças.
Onde ouvir o Portugal Plural?
No novo episódio do Portugal Plural, Paulo Mendes Pinto conversa sobre a Carta das Religiões, as transformações provocadas pelas migrações, o crescimento de diferentes comunidades religiosas e os desafios do diálogo inter-religioso.
A conversa também ajuda a refletir sobre como o conhecimento pode contribuir para enfrentar estereótipos e discursos de ódio.
Ouça o episódio e conheça mais sobre a diversidade religiosa em Portugal e sobre o projeto Words Matter.
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